Já lá vão dois anos desde que vi Rage, à porta fechada na
gamescom de 2009. Na altura fiquei francamente impressionado com o que vi, pelo que foi apresentado, desde o ambiente, passando pelo conceito de jogo, e sobretudo pelo fantástico motor de jogo (id Tech 5), que sustentava um visual impressionante a uns sólidos 60fps. Chegámos agora à sua versão final, e será que estes dois anos foram benéficos para o jogo? Ou se por outro lado foi um hiato, com uma constante evolução tecnológica, que dissipou um pouco o entusiasmo da altura?
O conceito global de Rage é interessante, mas existem pontos que lhe retiram alguma qualidade, como por exemplo a sua história algo vaga, que nunca chega a criar uma grande imersão no jogador. Em Rage, estamos num mundo pós-apocalíptico, um pouco ao estilo de Fallout. Somos um sobrevivente do impacto do asteroide Apophis, vamos deambulando pelo mundo criado pela id Software, conhecendo personagens, localidades, interagindo com o meio, completando missões em troca de diversas recompensas.
O conceito global de jogo não é novo, já o vimos em vários títulos, como o já referido Fallout. O que o afasta um pouco é a sua maior simplicidade, apesar dos elementos RPG presentes. Rage é em primeiro lugar um shooter e só depois um RPG. A jogabilidade é típica de um FPS, sendo depois complementada com alguns elementos dos RPG, e também a inclusão de veículos ao bom estilo de MotorStorm para a PS3.
Rage é sem dúvida um jogo que faz jus às produções da id Software. É um shooter divertido, com armas para todos os gostos, e possui um ambiente formidável. É realmente no campo visual que Rage impressiona, sobretudo pelo design de todo o ambiente, tornando-o credível e muito apelativo aos olhos. Os lugares a visitar são de um pormenor artístico assinalável, recriando localidades, desfiladeiros, e até zonas subterrâneas, tudo como nunca foi visto num videojogo até à data. Sem revelar muito, para não estragar o efeito surpresa, não poderia deixar de mencionar a fantástica recriação da chamada Dead City, com os edifícios em ruínas, onde existe a sensação real de que estamos num mundo que sofreu uma devastadora catástrofe.
Mas existem falhas gráficas de assinalar. Temos muitos problemas de pop-ups, quando viramos a câmara para a esquerda ou direita, as texturas demoram a carregar. Outro ponto a desfavor neste campo está relacionado com a fraca qualidade de muitas das texturas. À primeira vista, com o conjunto geral do que é apresentado, não notamos as texturas de baixa resolução, mas se olharmos com mais atenção podemos verificar que muitos dos objetos e partes do cenário possuem texturas horríveis, que são disfarçadas pelo design geral.
Compreendo perfeitamente estas falhas a nível gráfico, pois a id Software queria entregar um jogo com uns sólidos 60fps, e é assim que acontece. A versão testada é a do PC, com uma resolução de 1080p e AA 8x. Posso garantir que corre fantasticamente, pelo menos no computador onde o jogo foi testado (Intel Core i5 com uma ATI HD 6950 2GB e 4GB de RAM). Mas esta performance apenas foi alcançada através da atualização dos controladores da placa gráfica, criados especificamente para este jogo. Sem esta atualização o jogo não passava dos 30fps, havendo alturas em que descia dos 15fps, o que o tornava injogável. Rage, na sua versão PC, apresenta também muitos erros clamorosos, principalmente os crashes constantes no carregamento de níveis. Também existem problemas visuais com as personagens e até com as armas, que por vezes aparecem imperfeitas no ecrã, com erros nas texturas. Uma atualização é imprescindível para melhorar a experiência de jogo. É incompreensível como entregam um jogo repleto de erros.
Colocando de parte as características mais técnicas desta versão, passo ao que o jogo oferece, em jogabilidade, enredo, desafio e até entusiasmo. Rage não tem propriamente um mundo aberto, as missões são um pouco lineares, em que temos sempre um indicador no mapa da rota a seguir para determinado objetivo, tornando assim a tarefa do jogador mais facilitada, onde quase nunca nos sentimos perdidos no que temos que fazer. Como é óbvio, existem missões principais, que nos fazem avançar na estória, e outras secundárias para aumentar a longevidade do jogo e presentear o jogador com dinheiro ou itens.
As missões que nos são atribuídas são quase todas muito simples. Tempos que eliminar determinados inimigos, desbloquear acessos, procurar pessoas desaparecidas, ajudar determinadas localidades com as suas necessidades, e por aí adiante. Não é nada de muito inovador, são objetivos comuns que já fazem parte deste género de jogo. O que realmente empolga em Rage não são as tarefas a efetuar, mas sim como as executamos, mais propriamente como eliminados os inimigos através do imenso arsenal à nossa disposição.
Temos variadíssimas armas, desde do divertido wingsticks (uma espécie de bumerangue) que decapita o inimigo, passando por turrets, caçadeiras, pistolas, metralhadoras, e muito mais. A personalização das armas é imensa. Podemos selecionar qual o tipo de munição a usar, adquirir upgrades que melhoram o seu desempenho, construir as nossas próprias armas através de itens encontrados, ou simplesmente comprando nas várias lojas espalhadas pelas localidades. O arsenal bélico é realmente gigantesco, onde temos variadíssimas maneiras de eliminar o inimigo, sendo essa uma das partes mais divertida do jogo.
A personalização é de facto um dos pontos fortes do jogo. Para tal, há que vasculhar todos os recantos e corpos, à procura de itens, sejam eles para vender ou para utilizar na criação de novos gadgets. A criação é muito intuitiva, muito pelo facto de cada item possuir uma indicação visual do que poderemos criar, tornando assim a tarefa de criação muito facilitada.
Como já referi, Rage é em primeiro lugar um shooter em primeira pessoa, mas a id quis oferecer uma outra vertente, a utilização de veículos e respetivas corridas. A inclusão de veículos torna mais fácil a deslocação pelo mapa de jogo, onde o acesso a determinado local não é sinónimo de uma penosa e longa caminhada. Os veículos também podem ser personalizados, desde a colocação de temas, aquisição de armas, melhorias a nível da suspensão, pneus, e muito mais. As armas nos veículos são importantes, pois com o avançar do jogo vamo-nos deparar com veículos inimigos que barram a passagem, havendo só uma solução, abate-los sem piedade. É de salientar pela positiva a inclusão de veículos a um FPS, onde não existe a sensação de deslocação do resto do jogo.
Para além da sua utilização na deslocação pelo mapa de jogo, os veículos vão-nos dar acesso a corridas inspiradas em MotorStorm. É claro que não está ao mesmo nível, mas não deixa de ser uma variante diferente no jogo, sendo um complemento benéfico. O tipo de corridas são diversas, onde temos desde o simples time-attack passando por corridas com e sem armas contra adversários. Aqui a IA fica um pouco aquém do que seria desejável, não dão muita luta.
Como FPS, Rage está acima da média, com armas muito interessantes, uma boa jogabilidade, tudo combinado com uma excelente construção dos níveis, tanto interiores como exteriores, onde a beleza gráfica é o que mais salta à vista. A IA dos inimigos é que poderia estar mais aprimorada, limitam-se a esconder-se e muito pouco mais. Há alturas em que fogem, quando estão em dificuldades, mas não passa disso, não os vemos a flanquear a nossa posição. Muitos dos inimigos limitam-se a correr em nossa direção, sem qualquer tipo de estratégia.
Os amantes do modo multijogador não foram esquecidos, apesar de não existir um modo competitivo na componente FPS. Como shooter, Rage oferece cooperação para dois jogadores (Legends of the Wasteland), que são missões em locais retirados da campanha, mas com novas configurações e adaptadas a este modo, onde temos um arsenal pré-selecionado. Também temos corridas online (Road Rage), aqui sim existe um modo competitivo, onde entramos em corridas frenéticas, que podem ser simples corridas através de checkpoints, recolha de objetos, e até arenas onde apenas um irá sobreviver. À medida que vamos subindo de nível, teremos a oportunidade de adquirir novos veículos e upgrades para os mesmos e personalizá-los à nossa maneira. O multijogador do jogo não é nada de extraordinário, mas cumpre bem com a sua função, oferecendo ao jogador umas horas divertidas na companhia de amigos ou de jogadores de todo o mundo.
Rage é um jogo com variadíssimos sabores, onde por vezes parece que estamos a jogar algo do passado. Existe uma sensação de Déjà vu em determinados momentos, como se já tivéssemos experimentado isto antes. Muita dessa sensação está ligada ao comportamento dos inimigos, que reagem à nossa presença como em jogos já experimentados da id. O seu enredo é também um dos pontos desfavoráveis. Não sabemos bem o que andamos a fazer, a estória é muito superficial e a maioria das vezes andamos pelo jogo a completar missões que não sabemos bem onde encaixam. Tende a arrastar-se sem grandes picos de inspiração.
Confesso que fiquei um pouco desiludido com o jogo. De que vale uma atmosfera convincente sem uma narrativa a condizer? Apesar de tudo, o jogo não deixa de ser refrescante. Temos em mãos um jogo que merece ser experimentado. Consegue criar uma atmosfera pós-apocalíptica credível, muito devido ao seu fabuloso grafismo. Há que realçar uma vez mais o trabalho realizado a nível visual, pois é mesmo esse o ponto forte do jogo, que sustenta uma design maravilhoso. Como referi a versão analisada é a do PC, mas que os erros mencionados não farão mudar qualquer nota referente às versões Xbox 360 e PS3.